segunda-feira, 24 de agosto de 2015

Música como um Processo Gradual


Steve Reich/1968
(trad. Ramiro Murillo)


Eu não me refiro ao processo de composição, mas a peças musicais que são, literalmente, processos.

O aspecto distintivo dos processos musicais é que eles determinam todos os detalhes nota-a-nota e a forma geral simultaneamente. (Pense num cânone perpétuo.)

Estou interessado em processos perceptíveis. Quero ser capaz de ouvir o processo acontecendo através da música que soa [sounding music].

A facilitação da escuta minunciosamente detalhada de um processo musical deveria acontecer de maneira extremamente gradual.

A performance e escuta de um processo musical gradual combina:

suspender um balanço, soltá-lo e observá-lo gradualmente voltar ao repouso;
virar uma ampulheta e observar a areia lentamente escorrer até o fundo;
colocar seus pés na areia à beira do oceano e observar, sentir e ouvir as ondas gradualmente os enterrando.

Apesar do meu eventual prazer em descobrir processos musicais e compor material musical para percorrê-los, uma vez que o processo está pronto e carregado, ele anda por si mesmo.

O material pode sugerir qual tipo de processo a ser percorrido (conteúdo sugere forma), e processos podem sugerir que tipo de material poderia percorrê-los (forma sugere conteúdo). Se o sapato serve, vista-o.

Se um processo musical é realizado numa performance humana ou através de meios eletromecânicos não é o aspecto mais importante. Um dos concertos mais bonitos que já ouvi consistia em quatro compositores tocando suas fitas num salão escuro. (Uma fita é interessante quando é uma fita interessante.) [A tape is interesting when it's an interesting tape.]



É bastante natural pensar em processos musicais quando se trabalha com equipamentos de som eletromecânico. Toda música acaba se tornando música étnica.

Processos musicais podem oferecer um contato direto com o impessoal e também uma espécie de controle completo, apesar de não ser costume pensar no impessoal e no controle completo como vindo juntos. Por uma "espécie" de controle completo eu quero dizer que, ao deixar correr o material através deste processo, eu controlo completamente tudo que resulta, mas também aceito tudo que resulta sem alterar nada.

John Cage usou processos e certamente aceitou seus resultados, mas os processos usados eram composicionais do tipo que não podiam ser ouvidos durante a execução da peça. O processo de usar o I Ching ou imperfeições numa folha de papel para determinar os parâmetros musicais não podem ser ouvidos ao se escutar uma música composta desta maneira. Os processos composicionais e a música que soa [sounding music] não têm conexão audível. Similar é a música serial, em que a própria série é raramente audível. (Esta é uma diferença básica entre música serial (basicamente europeia) e arte serial (basicamente norte-americana), onde a série percebida é em geral o ponto focal da obra.)

O que me interessa é um processo composicional e uma música soante que são uma e a mesma coisa.

James Tenney disse numa conversa: "quando o compositor não é privado de nada". Não conheço nenhum segredo estrutural que não seja audível. Todos ouvimos o processo juntos, já que ele é bem audível, e uma das razões de que ele seja bem audível é porque acontece de maneira extremamente gradual.

O uso, na música, de dispositivos estruturais ocultos nunca me atraiu. Mesmo quando as cartas estão na mesa e todos ouvem o que está gradualmente acontecendo num processo musical, ainda há mistérios suficientes para satisfazer a todos. Estes mistérios são os subprodutos impessoais, não-intencionais e psicoacústicos do processo. Estes podem incluir sub-melodias ouvidas em padrões melódicos e efeitos estereofônicos devidos à localização do ouvinte, leves irregularidades na performance, harmônicos, diferenças de timbre etc.

Escutar um processo musical extremamente gradual abre meus ouvidos a isso, mas isso se estende além do que posso ouvir, o que torna interessante ouvir o processo musical novamente. Esta área de todo processo musica gradual (completamente controlado), onde se ouvem os detalhes do som se movendo para fora das intenções, ocorrendo por suas próprias razões acústicas, é isso.

Começo a perceber estes detalhes minuciosos quando consigo sustentar uma atenção precisa [close attention] e um processo gradual a convida. Por "gradual" me refiro a extremamente gradual; um processo acontecendo tão lenta e gradualmente que escutá-lo remete a observar o ponteiro de minutos de um relógio - você pode percebê-lo se movendo depois de ficar um tempo com ele.

Diversas músicas populares e modais atuais como a música clássica indiana e o rock 'n roll podem nos deixar atentos a minuciosos detalhes sonoros porque, por serem modais (centro tonal constante, zunidos hipnóticos e repetitivos), elas focam naturalmente nestes detalhes em vez da modulação tonal, contraponto ou outras peculiaridades ocidentais. Entretanto, estas músicas modais deixam estruturas mais ou menos estritas de improvisação. Elas não são processos.

O aspecto distintivo dos processos musicais é que eles determinam todos os detalhes nota-a-nota e a forma geral simultaneamente. Não se improvisa em um processo musical - estes conceitos são mutuamente exclusivos.

Na performance e escuta de processos musicais graduais pode-se participar de uma espécie de ritual particularmente libertador e impessoal. Dar foco ao processo musical torna possível o desvio da atenção para longe de ele e ela e você e eu, em direção ao isso.



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