Steve
Reich/1968
(trad.
Ramiro Murillo)
Eu
não me refiro ao processo de composição, mas a peças musicais que
são, literalmente, processos.
O
aspecto distintivo dos processos musicais é que eles determinam
todos os detalhes nota-a-nota e a forma geral simultaneamente. (Pense
num cânone perpétuo.)
Estou
interessado em processos perceptíveis. Quero ser capaz de ouvir o
processo acontecendo através da música que soa [sounding
music].
A
facilitação da escuta minunciosamente detalhada de um processo
musical deveria acontecer de maneira extremamente gradual.
A
performance e escuta de um processo musical gradual combina:
suspender um balanço, soltá-lo e
observá-lo gradualmente voltar ao repouso;
virar uma ampulheta e observar a
areia lentamente escorrer até o fundo;
colocar seus pés na areia à
beira do oceano e observar, sentir e ouvir as ondas gradualmente os
enterrando.
Apesar
do meu eventual prazer em descobrir processos musicais e compor
material musical para percorrê-los, uma vez que o processo está
pronto e carregado, ele anda por si mesmo.
O
material pode sugerir qual tipo de processo a ser percorrido
(conteúdo sugere forma), e processos podem sugerir que tipo de
material poderia percorrê-los (forma sugere conteúdo). Se o sapato
serve, vista-o.
Se
um processo musical é realizado numa performance humana ou através
de meios eletromecânicos não é o aspecto mais importante. Um dos
concertos mais bonitos que já ouvi consistia em quatro compositores
tocando suas fitas num salão escuro. (Uma fita é interessante
quando é uma fita interessante.) [A
tape is interesting when it's an interesting tape.]
É
bastante natural pensar em processos musicais quando se trabalha com
equipamentos de som eletromecânico. Toda música acaba se tornando
música étnica.
Processos
musicais podem oferecer um contato direto com o impessoal e também
uma espécie de controle completo, apesar de não ser costume pensar
no impessoal e no controle completo como vindo juntos. Por uma
"espécie" de controle completo eu quero dizer que, ao
deixar correr o material através deste processo, eu controlo
completamente tudo que resulta, mas também aceito tudo que resulta
sem alterar nada.
John
Cage usou processos e certamente aceitou seus resultados, mas os
processos usados eram composicionais do tipo que não podiam ser
ouvidos durante a execução da peça. O processo de usar o I
Ching ou imperfeições
numa folha de papel para determinar os parâmetros musicais não
podem ser ouvidos ao se escutar uma música composta desta maneira.
Os processos composicionais e a música que soa [sounding
music] não têm
conexão audível. Similar é a música serial, em que a própria
série é raramente audível. (Esta é uma diferença básica entre
música serial (basicamente europeia) e arte serial (basicamente
norte-americana), onde a série percebida é em geral o ponto focal
da obra.)
O
que me interessa é um processo composicional e uma música soante
que são uma e a mesma coisa.
James
Tenney disse numa conversa: "quando o compositor não é privado
de nada". Não conheço nenhum segredo estrutural que não seja
audível. Todos ouvimos o processo juntos, já que ele é bem
audível, e uma das razões de que ele seja bem audível é porque
acontece de maneira extremamente gradual.
O
uso, na música, de dispositivos estruturais ocultos nunca me atraiu.
Mesmo quando as cartas estão na mesa e todos ouvem o que está
gradualmente acontecendo num processo musical, ainda há mistérios
suficientes para satisfazer a todos. Estes mistérios são os
subprodutos impessoais, não-intencionais e psicoacústicos do
processo. Estes podem incluir sub-melodias ouvidas em padrões
melódicos e efeitos estereofônicos devidos à localização do
ouvinte, leves irregularidades na performance, harmônicos,
diferenças de timbre etc.
Escutar
um processo musical extremamente gradual abre meus ouvidos a isso,
mas isso
se estende além do que posso ouvir, o que torna interessante ouvir o
processo musical novamente. Esta área de todo processo musica
gradual (completamente controlado), onde se ouvem os detalhes do som
se movendo para fora das intenções, ocorrendo por suas próprias
razões acústicas, é isso.
Começo a perceber estes detalhes
minuciosos quando consigo sustentar uma atenção precisa [close
attention] e um
processo gradual a convida. Por "gradual" me refiro a
extremamente gradual; um processo acontecendo tão lenta e
gradualmente que escutá-lo remete a observar o ponteiro de minutos
de um relógio - você pode percebê-lo se movendo depois de ficar um
tempo com ele.
Diversas
músicas populares e modais atuais como a música clássica indiana e
o rock 'n roll podem nos deixar atentos a minuciosos detalhes sonoros
porque, por serem modais (centro tonal constante, zunidos hipnóticos
e repetitivos), elas focam naturalmente nestes detalhes em vez da
modulação tonal, contraponto ou outras peculiaridades ocidentais.
Entretanto, estas músicas modais deixam estruturas mais ou menos
estritas de improvisação. Elas não são processos.
O
aspecto distintivo dos processos musicais é que eles determinam
todos os detalhes nota-a-nota e a forma geral simultaneamente. Não
se improvisa em um processo musical - estes conceitos são mutuamente
exclusivos.
Na
performance e escuta de processos musicais graduais pode-se
participar de uma espécie de ritual particularmente libertador e
impessoal. Dar foco ao processo musical torna possível o desvio da
atenção para longe de ele
e ela
e você
e eu,
em direção ao isso.