“O som é o meio imersivo por excelência. Tridimensional, interativo e
sinestésico, percebido no aqui e agora de um espaço incorporado, o som
retorna ao ouvinte aquela sensação de estar aqui e agora, engolfado,
envelopado, absorvido, enredado, enfim, imerso em um ambiente. O som
rodeia [Sound surrounds]. Suas características fenomenais – o fato de
ser invisível, intangível, efêmero e vibracional – coordenam com a
fisiologia das orelhas, criando uma experiência perceptiva profundamente
diferente do sentido da visão dominante. Enquanto os olhos têm um campo
visual de 180 graus, projetados na frente do sujeito, as orelhas cobrem
uma extensão de 360 graus, ouvindo tudo ao redor. Enquanto os olhos
podem ser fechados, bloqueando visões indesejadas, as orelhas não têm
pálpebras. Enquanto a visão posiciona o sujeito simbolicamente como o
diretor do que vê, sempre olhando à frente e em direção ao futuro, a
audição subverte este papel: o ouvinte não pode controlar o que
normalmente se ouve, o que é murmurado “atrás das minhas costas”. Imerso
no som, o sujeito perde seu ‘eu’ e, de diversas maneiras, perde seu
sentido. Como a audição não é um sentido discreto, ouvir é também ser
tocado, física e emocionalmente. Sentimos os sons graves vibrarem no
estômago e entramos em pânico; sons agudos abruptos nos fazem hesitar
involuntariamente; um grito agudo é angustiante: o som tem efeitos
físicos óbvios e imediatos. Pela audição, pode-se engajar numa sinergia
com o mundo e os sentidos, uma escuta/toque que é a essência do que
chamamos de reação visceral – uma resposta simultaneamente fisiológica e
psicológica, corpo e mente. Estas características desafiam os
fundamentos da metafísica e da cultura ocidental em geral, questionando o
status do objeto e do sujeito simultaneamente. Por conta disso, o aural
tem sido mutado, idealizado, ignorado e silenciado pelas mesmas
palavras usadas para descrevê-lo. ‘Som’ – o termo em si – já é abstrato:
há som como há atmosfera; como uma neblina, que desaparece quando se
aproxima dela, escapando do discurso assim que encontra a pele. O som,
transportando divisões culturais entre linguagem e balbucio, música e
ruído, voz e efusões corporais abjetas, resiste à teorização, invocando
também noções tecno-gnósticas (emprestando o termo de Coyne) de
transcendência que obscurecem as origens culturais e tecnológicas da
mídia sonora.”
(tradução feita pelo Ramiro Murillo)